Desculpa se sou lindo!

Adoro gatos.

Mas isso é uma coisa tão banal de se falar, não? Tão comum, isto é, tão lugar comum. Adoro gatos. Uma frase tão banal, com apenas duas palavras que não expressam exatamente o que sinto. Essas duas simples palavrinhas não são suficientes para dizer do meu amor por esses bichinhos.

No momento em que escrevo este texto meu gatinho está deitado sobre as minhas pernas. Ele é marrom avermelhado, tigrado, sabe? Com manchas mais arredondadas pelo lombo e umas listras nas patas, que lembram mesmo as de um tigre. Meu tigrinho, que está de dieta para ver se perde dois babados de banha que tem sob a barriga, um de cada lado, bem onde se inicia da uma das patas traseiras. Quando ele corre só se veem as duas bolinhas de gordura querendo se desprender de seu corpinho roliço.

E ele tem a expressão mais fofa que eu já vi num gatinho. É um olhar meigo, eloquente como um poema que ilumina minha alma cada vez que ele me mira com seus olhinhos tricolores. Sim, porque o danado tem olhinhos de três tons de um marrom avermelhado, que combinam, todos os três, com a cor do pelo macio.

A primeira cor que se nota, na parte mais externa do olho, é um bege claro, quase amarelo e quase vermelho. Como assim? Ou é bege, ou é amarelo ou é avermelhado. Ora, mas o gato é meu e eu sou daltônico, então posso enxergar-lhes os olhos da cor que eu quiser, da cor que eu conseguir enxergar, quero dizer. E para mim essa parte externa dos olhinhos do meu pequeno é bege/amarela/avermelhada. É assim que eu vejo. E note que não falei de três cores, mas da fusão dessas três assim como eu vejo.

Depois dessa camada externa há uma divisão não muito nítida e aquele bege/amar… você sabe, torna-se mais escuro. Um castanho, como diz meu amigo português, que não suporta a palavra marrom. “És por acaso francês, para dizeres ‘marrom’? Ora pois, em português o nome da cor é ‘castanho’, ó pá.” Pois bem, voltando aqui ao fio da meada, que nem sei mais onde foi que o perdi. Ah, estávamos na segunda cor dos olhos do meu fofinho de olhos multicores.

Depois disso vem a terceira cor, um grão de arroz negro ou um grão de feijão preto ou uma minúscula risca preta. Tudo depende da intensidade da luz. Quando ele está sob o sol e olha para a luz farta do dia, nossa! quase nem se nota que aqueles belos olhos oblíquos de meu pequeno Capitu têm três cores. Os dois minúsculos tracinhos no centro dos olhos parecem se confundir com o bege, digo, castanho, ó pá! do restante do olho.

Mas se ele está na penumbra o rabisco se expande no formato de um grão de feijão preto. Duas manchas negras a saltarem daquelas íris cor de mel, como diz a música. Eu, cujos olhos castanhos escuros, quase negros, são praticamente uma coisa só, íris, pupila, tudo negro, tudo denso, tudo normal demais, ordinário demais, monocromático demais, morro de inveja daquele festival de cores nos olhos pidões de meu pequeno filhote.

E como se não bastasse aquele festival de cores, tem a expressão. Ah, você diria, isso é coisa de pai babão. Onde já se viu um gato ter expressão no olhar? Não me venha com essa, você repete e faz um muxoxo descrente para mim. Pois eu lhe repito, amigo incréu, é a expressão mais meiga que você possa imaginar. Eu duvido que você, se estivesse aqui no meu lugar, ao ver a mirada oblíqua no meio daquela cara tigrada, não sentiria vontade de mergulhar naquele mundo bege e ali se perder para sempre.

Está bem, reconheço, pode ser que eu exagere. Mergulhar, perder-se para sempre, desaparecer no mar daqueles olhinhos deliciosos pode até ser que não, mas eu duvido e faço pouco se você não iria querer abraçá-lo. Ah, iria sim, tenho certeza. Eu não resisto, jamais resisti, jamais quis resistir, por que você haveria de? Não, certamente você não seria tão forte a este ponto. Sim, digo forte mesmo, por que para isso você teria que ser feito de aço, ou de gelo, que é muito pior.

Mas uma pessoa que tenha sangue vermelho e quente e latino nas veias não pode se dar ao luxo de ser contido. Isso é para os de sangue azul, os caucasianos da gema, aqueles do norte da Europa, acostumados ao gelo polar. Você não, minha amiga, meu amigo, você é latino como eu, e como tal há de saber dar valor a um olhar caliente de verdade.

Porque ele é de fato bem quentinho. Não só o olhar, mas o corpinho rechonchudo é muito bom para aquecer a gente neste frio paulistano. E digo isso como quem o conhece a fundo. Não só o conheço como o sinto aqui neste exato momento sobre minhas pernas esticadas sobre a cama, pegando fogo enquanto dorme sobre elas o sono dos justos.

Ele é justo, por suposto, afinal, nunca fez mal algum a uma mosca que seja. Apenas come (um pouco além da conta, reconheço), dorme (um pouco além da conta, também isso tenho que admitir), brinca (não muito além da conta, para desgraça de sua pança, que cresce a olhos vistos) e me lança olhares que transformam meu coração na mais pura manteiga bem derretida.

Meu tigrinho é um sopro de alegria diário em minha vida. Sabe aqueles dias em que a gente chega do trabalho cansado? Aqueles em que o chefe botou a gente no colo e não foi para consolar? Aquele em que seu colega de sala te deu uma patada logo de manhã e te deixou com um gosto azedo na boca pelo resto do dia? Nesses dias a gente chega a casa querendo apenas se prostrar em um canto macio qualquer e esquecer-se da vida medíocre que nos foi destinada por algum anjo traquinas e mal-humorado, certo?

Certo. Isto é, certo se você não tiver um tigradinho como o meu te esperando bem ao pé da porta, ainda se espreguiçando porque largou seu soninho da (muitíssima)beleza só para te receber com um miado assim que você puser os pés para dentro. Aí sim você verá o que é transformação. Milagres acontecem. O cansaço vira energia, o colinho espinhento do seu chefe ficar para trás e do seu colega de sala não restam sequer recordações.

Isso é o milagre dos gatos. Não acredita? Vai dizer que jamais ouviu falar que gatos são milagrosos? Não? E místicos? Tampouco? E deuses? Ah, vá! Desinformado você. Pois eu digo e repito que foram até príncipes em outra vida. Eram e são tudo isso e também capazes de transformar esta sua vida amarga de trabalhador explorado pelo capitalismo selvagem em puro deleite. Já ouviu falar em mar de rosas? Pois…

E você certamente deve estar aí pensando: “Ah, mas ele é suspeito para falar, pois não disse que adora gatos? Pois não começou este texto boboca justamente com esta frase ‘adoro gatos’? O que se pode esperar de um homem desses, a não ser que seja tendencioso, influenciável, piegas e boboca como seu texto?” (quantos adjetivos! obrigado! não mereço tanta consideração).

Sim, digo que sim, é verdade, confesso, adoro gatos, caso você não tenha percebido isso ainda. Seriam minha religião, se eu tivesse uma. As pessoas fundam igrejas para tudo neste mundo, por que eu não poderia fundar a Igreja Universal do Reino Felino, se quisesse? Poderia sim. Ou a Igreja Gatólica Apostólica Romana. Ou poderia ser adepto do Gatomblé. Também, se quisesse. Mas não quero. Posso adorá-los aqui sozinho, sem religião organizada, que isso dá muito trabalho.

E você não pensou que eu teria um só gato, pensou? Então, inocente, depois de tudo isso melhor esperar que eu tenha pelo menos uma dúzia. Mas não. Só tenho mesmo dois. Este castanho (repetitiiivoooo, repetitiiivoooo, repetitiiivoooo…), aliás, castanho não, tigrado de, adivinha… castanho e preto, e uma bela frajola de olhinhos muito amarelos, como se portasse dois pequenos sóis no meio da cara mascarada.

Ela também é linda, óbvio. E nem poderia ser diferente, pois os olhos que a veem e que a descrevem são os meus, estes mesmos olhos tendenciosos e pouco objetivos que, apesar de não enxergarem algumas cores, avistam miríades de belezas onde quer que se mova a elegância divina de um gato.

Foi assim, certo dia eu estava andando pelo Bixiga quando avistei dois olhinhos amarelos no meio de uma pequena cara mascarada de branco e preto que miava para mim meio faminta…

Mas isto já é outra história.

2 comentários sobre “Desculpa se sou lindo!

    • GildoC.Costa disse:

      “Você, meu amigo de fé, irmão, camarada…” (beeeem original, não?) É recíproco, meu irmão!

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