Deus nos livre de ouvir nossos próprios pensamentos

Tive a sorte, ou o azar, de nascer com ouvidos aguçados, ou, como disse certa vez o vizinho do apartamento de cima depois de ouvir pela décima vez minha reclamação de que ele fazia barulho demais, com ouvidos apurados. Pode ser que isso tenha alguma relação com o fato de eu ser daltônico. Sabe a velha máxima de que um sentido compensa o outro? Talvez meus ouvidos de perdigueiro compensem minha visão semi deficiente.

Isso pode trazer grandes vantagens, alguém poderia argumentar, todavia confesso que não vejo quais sejam elas num mundo cada vez mais barulhento, no qual as pessoas parecem não ser capazes de ouvir os próprios pensamentos e parecem estar sempre em busca do máximo de ruído possível. Senão vejamos.

Ter um ouvido como o meu é ótimo para detectar afinação e boa música. Mas infelizmente também é excelente quando se trata do contrário. Num mundo cada vez mais cheio de tudo o que se pode imaginar de horripilante em matéria musical, que vantagem há nisso? Apenas tenho o azar de ouvir a música ruim antes de qualquer pessoa, de detectá-la a quilômetros de distância e de ser o primeiro a me incomodar. Quando ouço o grave mal regulado de certos barulhos que alguns ousam chamar de músicas hoje em dia, admito que preferiria ser surdo.

E música ruim é o menor dos meus problemas, pois no geral tenho como evitá-la. O difícil é conciliar no dia a dia esse meu ouvido com alguma qualidade de vida. Moro na região da Avenida Paulista, que é ótima em termos de infraestrutura, de comércio e de serviços. Mas essa talvez seja também a região mais barulhenta de São Paulo. Por causa dos vários hospitais e dos escritórios de grandes empresas que existem por aqui, não se passa um só minuto sem que se ouça um helicóptero ou uma ambulância, a qualquer hora do dia ou da noite. Buzinas então, melhor nem comentar. O velho jargão “durma com um barulho desses” nunca foi tão verdadeiro em nenhum lugar quanto o é por aqui.

E os cães? Ah, os cães, tão alegres e tão fofinhos! Experimente ter um ouvido aguçado como o meu e morar a alguns poucos metros, e separado apenas pelas paredes finas dos apartamentos de hoje, desses lindinhos. E tente manter a calma ouvindo latidos e mais latidos de cães que são deixados à própria sorte o dia inteiro e não conseguem se conter ao ver um mosquito sequer passar na janela. Agora imagine vários deles no apartamento de cima, no do lado, no de trás, no de baixo… e olha que eu devia compreendê-los, pois com uma audição dessas, sou quase um deles. Aliás, diante de alguns barulhos que ouço hoje em dia, também latiria de ódio se pudesse.

Tenho o azar de viver numa época em que as pessoas não suportam o silêncio. É como se praticamente todos à minha volta estivessem tempo inteiro procurando algum tipo de barulho para se distrair. Ou é música ruim ou é som de notificação de ligações ou de mensagens no celular ou é falação sem fim. Às vezes tenho a impressão de que algumas pessoas não toleram ouvir os próprios pensamentos. Deus as livre de serem obrigadas a ficar alguns instantes à sós consigo mesmas. Será que têm medo de se dar conta do quanto suas vidas são medíocres? Talvez.

Não gosto da música que toca na academia, mas tolero-a em nome da minha boa forma física, se estiver num volume razoável, o que é bastante raro. E outro dia, ao comentar com alguém o quão insuportável ela estava, ouvi a sugestão de levar de casa minha própria música e ouvi-la no fone de ouvido. Imagine a situação: o senhor ouvido apurado tendo que ouvir música em volume suficiente para camuflar a da academia, que o incomoda por ser alta demais.

Por falar em academia, trata-se de um dos lugares mais barulhentos do planeta, pois alguns a frequentam para socializar e não em busca de exercícios e de uma vida saudável. Não é raro vários grupinhos de duas ou três pessoas que passam a bater papo três terços do tempo em que estão por lá. Começam na esteira, onde usam o tempo de caminhada para falar ininterruptamente, e continuam pelos outros aparelhos, horas a fio. Juro que gostaria de saber onde essas pessoas encontram fôlego para falar enquanto caminham, ou mesmo enquanto correm, quando eu mal consigo respirar. Invejo essa gente, mas também tenho a teoria de que se caminhassem um pouco mais rápido ou se de fato corressem emagreceriam, ficariam em forma e não falariam tanto.

O fato é que todos estes barulhos incomodam-me demais. Música alta, buzinas de qualquer espécie (vuvuzela, invenção de algum demônio do barulho), fogos de artifício, conversa excessiva. Até estouro de bola de chiclete acaba comigo. Quer me deixar louco? Estoure uma bola de chiclete perto de mim. Odeio. Aliás, detesto qualquer tipo de estouro, seja de tiros, de fogos de artifício ou de bolas de chiclete, do mais alto ao mais insignificante (um cão, como vê).

Sei que não posso me portar como se fosse o dono do silêncio ou o padrão a ser seguido nesse aspecto para a vida em sociedade. Sei que talvez tenha que me adaptar a um mundo cada vez mais barulhento ou me mudar para um lugar mais tranquilo, pois não penso que essa minha sensibilidade auditiva (também conhecida com chatice, segundo alguns amigos queridos) diminuirá com o tempo, pelo contrário.

Como a ordem natural das coisas é que eu fique cada vez mais velho (e cada vez mais chato), começo a considerar a possibilidade de ir morar numa fazenda no meio do nada, onde eu não tenha jamais que ouvir som algum a não ser o canto dos pássaros. Oops, também me incomoda! Brincadeira. Adoro o som dos pássaros. Se não seria melhor morrer.

Por falar em morte, parte dos meus parentes mais velhos ficou surda antes de morrer. Talvez haja esperança.