Doutor, o protegido do grande pica das galáxias

Doutor começou como qualquer um, de baixo. Sem nome, sem um puto sequer nos bolsos das calças baratas, mas com muitas ambições e altas expectativas. Tudo o que tinha de sobra eram pretensões e a proteção do grande pica das galáxias.

E fez por onde suprir suas pretensões. Com boa dose de perseverança, com a persistência característica dos que estão fadados a dar grandes passos, ele foi subindo.

Não se pode deixar de mencionar, é claro, que era um pouco baba ovo, ou melhor, vamos tentar com um pouco mais de elegância: dado à bajulação. Um modo fino de se dizer, afinal, se a grosseria não fica bem nos mortais comuns assenta pior ainda nos que se propõem a ser escritores, caso deste, dos pequenos o mais medíocre, que vos narra estas peripécias.

Pois bem, psiu, olha a digressão! Vamos aos fatos. E o fato é que com boa dose de competência, alguma de talento, várias de destemor, sim, porque ele era dos mais destemidos, além de muitas e muitas doses de puxassaquismo, Doutor chegou ao topo da pirâmide social mais rápido que um elevador desses de alto desempenho.

É certo que também o ajudou o fato de que seu pai era amigo do rei, digo, do diretor da companhia, que era sim rei, seja porque se comportava como um, do alto de sua sala de amplas janelas panorâmicas, seja porque assim era tratado por todo o povaréu, dezenas de funcionários, diretores e gerentes abaixo dele.

Rei? Alguém aí leu rei? Que lapso! Que tentativa descarada de rebaixar o que não pode ser rebaixado. Pois ele não era rei. E quem disser o contrário comete o mais vil pecado mortal contra o santo nome de deus. Isso mesmo, pois ele era ninguém mais ninguém menos que deus. E o verbo se fez homem. E o verbo era deus. Deus, isso mesmo, deus, sou deus, ele poderia dizer, se ousasse tanto, embora ousasse bastante.

Agora imaginem o que é ser amigo de deus. O que pode um amigo de deus? Tudo. Menos tentar se colocar no lugar do próprio deus, é claro. Pois esta briguinha à toa, essa coisa de medir o pau, a distância da mijada, quem tem o carro maior ou mais seguidores no Instagram, que se arrasta aí ao longo dos milhares de anos entre deus e o diabo só existe porque um tenta tomar o lugar do outro.

Deus se sente no seu lugar de direito, afinal criou tudo. Nada mais justo, portanto, que o sujeito que criou todas as galáxias seja o grande pica das galáxias, o controlador de todas as coisas.

Acontece que o diabo é tinhoso. O cão danado não manda recado nem se esconde atrás da moita. Vai daí que ele quis tomar o lugar justamente de quem? De deus. E a partir disso surgiu a medição dos cacetes. O meu é maior. Eu mijo mais longe. O meu é mais torto para a direita enquanto o seu vira-se para a esquerda. E o caralho deste tipo, essa bobagem que todo mundo conhece há tempos, o blá blá blá da Bláblábíblia.

É isto o que acontece se alguém decide tomar o lugar de deus. Deus fica furioso. Deus fica bravo. Deus fica amuado. Deus não gosta que ninguém tenha o pau maior que o dele. Isso nem pensar. Mas mesmo que o tenha do mesmo tamanho deus ainda fica chateado. Porque deus é mimado, deus acostumou-se a ter tudo desde sempre, deus é dono do mundo e de tudo e deus manda. Ponto final. Ai de quem ousar questionar deus.

Mas dizem que deus é até um pouco justo, sabiam? É isso ai. De vez em quando, ou, como diriam os mais crédulos e os mais ingênuos, sempre, deus recompensa os que se dedicam a ele inteiramente, sem pestanejar, sem questionar e sem reclamar. De preferência que o façam por intermédio de uma religião organizada e que deem o dízimo direitinho. Aliás, que deem não, que paguem, porque dízimo é obrigação e não liberalidade. Deus precisa sobreviver. E não dá para sobreviver sem dinheiro. O custo de vida nas galáxias está pela hora da morte, embora deus não morra.

Então, como se ia dizendo, deus gosta de quem é amigo. E gosta também de quem é filho do amigo. E Doutor era filho de um grande amigo do deus em questão na Sassastrax. Que não era exatamente deus, mas era o rei da monarquia absolutista representada por seu cargo de p-r-e-s-i-d-e-n-t-e da potência Sassá, o apelido carinhoso que os funcionários, diletos servidores de deus, davam ao conglomerado bilionário.

Presidente, CEO, rei, deus… que diferença faz o nome que se dá a quem manda? O importante é saber de onde vem a ordem, meu filho, e cumpri-la, havia dito o pai de Doutor, o amigo de deus.

E como filho do amigo de deus amiguinho é, era só seguir os conselhos do papi, “observar bem de onde vinha a ordem e ter sabedoria suficiente para cumpri-la”, que Doutor cresceria.

E mais. Melhor até do que saber cumprir uma ordem era saber como deixar claro para todos em volta que o comando havia sido cumprido a contento. Afinal, que graça havia em extrair um grampo de uma folha de papel se todos em volta não ficassem sabendo neste exato momento que naquele canto esquecido da galáxia (a não ser pela presença de deus.p-r-e-s-i-d-e-n-t-e.magnânimo) uma folha de papel qualquer havia sido aliviada de seu grampo.

Isso Doutor fazia com maestria. Ninguém era capaz de superá-lo na arte do mise-en-scène. Se havia alguém que sabia como fazer propaganda de seus feitos, esse alguém respondia pelo nome de Doutor. Cada relatório, cada reunião, cada documento enviado ou recebido, cada email era devidamente anunciado em alto e bom som no departamento, para que todos tomassem ciência, sem sombra de dúvida, do quão competente era Doutor.

Não se tratava de má pessoa. Não, de forma alguma. É possível que se não fosse ele filho de quem era, se não estivesse tão disposto a galgar seus degraus rumo ao topo do prédio onde ficava a sala da p-r-e-s-i-d-ê-n-c-i-a, se tivesse um pouco mais de colhões, se conseguisse se impor ao domínio absoluto que o pai impunha sobre ele, se, se, se, se, se… se não houvesse tantos se’s, ele até que não seria malvisto na empresa.

O rapaz tinha bom caráter até. Gostava de ajudar velhinhas a atravessar a rua, reciclava o lixo, andava de bicicleta de vez em quando, não tomava banhos muito demorados, não comia glúten nem transgênicos, usava o fio dental. O que se poderia dizer de uma pessoa dessas, a não ser que se tratava de cidadão exemplar?

Ele tinha até um cachorro. Está certo que não era um vira-lata qualquer e que ele não o havia apanhado da rua numa noite chuvosa de domingo, mas ainda assim era um cão. Ora, ele tinha um cão, gente. Quem não gosta de cães, bom sujeito não é. Logo, quem gosta só pode ser demais. E ele era demais. Demais com seu buldogue francês da moda, que comprara num canil autorizado, devidamente registrado com seu pedigree de elite, ao custo de oito meses de salário da moça que limpava o banheiro de seu flat e levava o cão para passear durante a semana. Mas só durante a semana, porque aos sábados e domingos ele gostava de exibi-lo no shopping AAA ou no parque AAA para pessoas tão AAA quanto ele.

Não se pode negar, portanto, que o rapaz era boa gente. E por que, então, se Doutor já era AAA, se seu pai já era amigo de deus, ou seja, se ele estava sob a proteção do grande pica das galáxias, tinha essa ambição desmedida de subir? Ah, Freud explica? Será que no fundo Doutor tinha pau pequeno? Será que Doutor queria compensar com seu carrão o pintinho acanhado?

Não, que maldade pensar isso de Doutor. Não dissemos que Doutor tinha bom caráter? Não, não dissemos. Dissemos que se Doutor não fosse influenciado por tantos “se’s” ele poderia ter bom caráter. E tem mais, o tamanho da pica não tem nada a ver com caráter. Deve haver por aí pintos minúsculos com caracteres maiúsculos certamente.

Doutor queria subir porque queria ser ainda mais AAA do que já era ao nascer filho de quem nascera.  Talvez AAAA. Não bastava usar Polo Ralph Lauren. Doutor queria mesmo era ir buscar suas Polo na Fifth Avenue em Nova Iorque de jatinho particular. Doutor queria era ancorar seu iate de muitos e muitos e muitos pés em Angra para mostrar quem era que mandava, embora ficasse mareado só de ver a barcaça.

Ele queria era ter muito dinheiro; tanto dinheiro que fosse preciso andar de carro blindado pelas ruas dos Jardins para evitar ser sequestrado. Doutor queria mesmo era ser ele próprio o pica das galáxias.

E este foi o grande erro de Doutor, pois, como se disse agora há pouco, deus não gosta dessa história de medir o pau com ninguém. Quem tem mais poder não é coisa para ser discutida nem questionada. Ele, deus, tem mais poder e ponto. E costuma punir quem se atreve a duvidar disso.

Pois bem, Doutor, nessa ânsia de subir, subir e subir, acabou perdendo a noção da altura. Sabe quando a pessoa está tão acostumada com o topo que se esquece de que cair de lá fere, dói e machuca? Bem assim era Doutor, encastelado lá no alto, totalmente esquecido de que não sabia voar.

Deus não gostou disso, mesmo que Doutor fosse filho de seu melhor amigo, diabo. Portanto, um dia deus chamou seu amigão satã e disse que não estava gostando dessa história do filho dele querer ser ele próprio deus também.

E disse que diabo devia acabar com isso imediatamente. Diabo não gostou da ideia de seu amigo. Sobretudo não gostou de que seu amigo o instava a sacrificar o próprio filho. Mas não pôde fazer nada quanto a isso, pois deus era deus. E não fora diabo mesmo que ensinara ao filho a importância de saber de onde partia a ordem a fim de cumpri-la direito?

Então diabo resolveu o problema. Pôs na cabeça de Doutor que ele não era feliz, mesmo com seu carrão blindado, seu jatinho particular, seu iate cheio de pés e suas Polos Ralph Lauren. Doutor acreditou em diabo, seu pai, e principiou a ficar tristonho, tristonho, tristonho… E nada, nem sequer o boquete de sua secretária, a (não)virgem dos lábios de mel, por baixo da mesa, era capaz de alegrar Doutor.

Doutor não aguentou a pressão de sua infelicidade. Um dia subiu ainda mais ao topo do prédio, dessa vez literalmente, por um lance de escadas que dava acesso direto de sua sala panorâmica ao heliponto, e voou de lá para a Berrini.

Mas esqueceu-se de que não tinha asas. E nem diabo, seu pai, nem deus, melhor amigo de seu pai, quiseram salvá-lo. Doutor se estatelou no asfalto e manchou sua Ralph Lauren de sangue, uma bagunça.

Na necropsia descobriu-se que Doutor tinha mesmo um pau minúsculo, abaixo da média nacional.

Pode crer. É verdade.