Haddad e os travestis

Na semana passada foi divulgada a notícia de que a Prefeitura de São Paulo, administrada pelo prefeito Fernando Haddad, pagará salário mínimo para travestis estudarem, com o objetivo de deixarem a prostituição e inserirem-se no mercado de trabalho. O programa é semelhante ao Bolsa-Família, do Governo Federal, e teria sido objeto de empenho pessoal do prefeito, motivado pelo fato de que sua própria mãe incomoda-se por morar numa rua onde há prostituição de transexuais e travestis.

Bastou a divulgação do programa, que efetivamente ainda nem foi implantado, para começar a grita entre a população paulistana. Vários argumentos contra a medida foram escritos, as pessoas comentaram alarmadas nas ruas e nos bares e links com comentários indignados pulularam no Facebook. Muitas pessoas não gostaram do que leram, outras disseram que o benefício deveria ser estendido para as mulheres prostitutas também, pois elas sofrem igualmente preconceito, discriminação e violência.

Entender que é similar a situação de mulheres e travestis prostitutas, demonstra dupla ignorância. A primeira, sobre a situação da mulher no mercado de trabalho atual. A segunda, a respeito dos diferentes motivos que levam ambos, mulheres e transexuais, a se prostituírem.

Embora as mulheres ainda sejam vítimas de discriminação no mercado de trabalho, inclusive porque continuam a receber salários menores do que os homens em empregos similares, a situação feminina mudou muito desde o século passado. Hoje, as mulheres podem ser comandantes de aviões, chefes militares, astronautas, altas executivas e chefes de Estado, isso se mencionarmos apenas profissões às quais usualmente apenas os homens tinham acesso. O Brasil, além de outros países sul-americanos, é governado por uma mulher. Uma das maiores empresas nacionais, a Petrobrás, tem como presidente uma mulher. A chanceler alemã é do sexo feminino. Uma mulher é atualmente a presidente do Federal Reserve, o Banco Central americano, o mais influente do mundo. Também o Fundo Monetário Internacional é hoje dirigido por uma mulher.

Essas mulheres poderosas naturalmente são uma minoria da população mundial, mas esses exemplos demonstram aonde uma mulher pode chegar hoje em dia. Seja em altos postos profissionais, seja em empregos subalternos, as mulheres não são mais mal vistas no mercado de trabalho. É natural grandes empresas terem em seus quadros considerável número de mulheres. No serviço público também é grande a presença feminina.

O mesmo não se pode dizer de travestis, transexuais e transgêneros. Para estes, resta o mercado informal e, na extensa maioria das vezes, a prostituição. Apenas uma minoria dessas pessoas consegue se inserir no mercado formal; a maior parte delas recorre à prostituição como única forma de sobrevivência.

Note-se que não se está aqui falando de escolhas. Uma mulher pode escolher se prostituir, seja pelo motivo que for. Algumas se prostituem simplesmente porque a renda que conseguiriam no mercado de trabalho formal é bem menor do que a que conseguem ao vender o próprio corpo. Outras escolhem essa carreira porque gostam dela, por incrível que pareça. Mas pouquíssimas podem dizer realmente que não tinham alternativa para sobreviver com dignidade.

O caso dos travestis é diferente, pois grande parte dos empregadores não quer em seus quadros um transexual. Mesmo em salões de cabeleireiros, mercado que usualmente acolhe muito bem homossexuais, a presença de travestis não é comum. Eu mesmo, confesso, já me senti desconfortável ao ser atendido em um estabelecimento desses por um transexual. A maioria dos homens sequer admitiria ser atendido por um profissional desses e grande parte das mulheres igualmente não aceita um travesti como cabeleireiro, massagista ou depilador.

O seguinte exemplo ilustra isso. Recentemente a cartunista (a cartunista, pois é como ela se identifica e prefere ser chamada) Laerte, foi discriminada em um banheiro feminino por mulheres que não se sentiam confortáveis em usá-lo juntamente com uma pessoa que claramente se identifica como mulher e que provavelmente não as assediaria sexualmente. Mesmo porque o banheiro é um lugar aonde as pessoas vão para fazer suas necessidades fisiológicas, cada uma no seu canto privado, protegidas dos olhares das outras, o qual não se presta, pelo menos não usualmente, a práticas sexuais de quaisquer tipos.

Estamos falando de uma pessoa conhecida, artista, jornalista e profissional respeitada, e de duas das mais naturais e básicas necessidades humanas, urinar e evacuar, que todos praticam em casa em banheiros unissex, um por vez, como deve ser. Mas essa mesma discriminação sofrem diariamente dezenas de travestis e transgêneros. Se o preconceito acontece numa das ações cotidianas mais primitivas, imagine no mercado de trabalho. Não tenha dúvida de que é muito pior.

É para possibilitar oportunidades mais igualitárias no mercado de trabalho a essas pessoas que o programa da Prefeitura de São Paulo foi criado. O objetivo é que travestis recebam bolsa de um salário mínimo enquanto se preparam para o mercado de trabalho em escolas públicas de ensino técnico. Depois de educados e preparados, os travestis podem escolher se querem continuar na prostituição ou não. Mas aí realmente terão escolha, o que não ocorre hoje em dia, haja vista que muitos são expulsos de casa antes de concluírem os anos escolares.

Se você é contra, e isso é um direito seu, pois vivemos numa democracia, pense um pouco. Você se sentiria confortável em ter na mesa de trabalho ao lado da sua um travesti? Pode responder com honestidade que se fosse dono de uma empresa não teria problema algum em empregar uma dessas pessoas? Ou ficaria com medo de perder seus clientes mais conservadores? Poderia se entregar confortavelmente a um cabeleireiro ou massagista ou depilador ou dentista ou médico transexual? O que realmente passa pela sua cabeça quando lê que a filha da cantora Gretchen acabou de se submeter a uma cirurgia para se livrar das mamas? O que pensa ao ler que a filha do casal de atores americanos Angelina Jolie e Brad Pitt, Shiloh, veste-se de homem e prefere ser chamada de John?

O que o prefeito Fernando Haddad pretende não é acabar por completo com a discriminação, tarefa impossível por enquanto. Também, certamente não se pode cometer a ingenuidade de pensar que essa medida vai possibilitar o acesso amplo e irrestrito dos travestis ao mercado de trabalho, como já acontece com a população feminina. Há um longuíssimo caminho pela frente, não há dúvida. Mas é preciso começar a trilhar esse caminho. Entender e apoiar esse programa social e, mais que tudo, abrir a mente para viver em uma nova sociedade, mais diversa, mais justa e mais igualitária, certamente é um bom começo.

 

2 comentários sobre “Haddad e os travestis

  1. Sergio Rodrigues disse:

    Sou contra o pagamento desse tipo de bolsa ou engodo, como preferir.
    Mais efetivo seria um fundo destinado à iluminar a população acerca da pluralidade da sociedade.
    Campanhas publicitárias, com vinculação contínua, teriam melhor resultado.
    A sociedade está mais preocupada como o sujeito se veste, com quem ele faz amor, quem ele deseja como cônjuge. Pouco importa sua qualificação profissional.
    Entendo que a atitude do prefeito é louvável por trazer à baila essa importante questão. É preciso deixar de dar de ombros a temas tão atuais, existe sim homossexualidade, transsexualidade, bissexualidade etc.
    A mim importa um bledo com quem você faz amor.
    Este sou eu. E vc?
    #oquefazvcfeliz

    • GildoC.Costa disse:

      Amigo, é fato que as pessoas se preocupam demais com quem os outros vão para a cama. Também têm problemas em encarar de frente homossexuais e outros quetais. O problema delas com transexuais e travestis é justamente o fato de que não conseguem ignorar. Quanto à bolsa do prefeito, respeito sua opinião, claro, mas sou a favor. Penso que é importante dar uma possibilidade concreta para essas pessoas saírem da prostituição.

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