Mãe à meia luz

Ele acaba passar pela sala e de ver a mãe sozinha no sofá, na penumbra, assistindo ao programa insuportável do início da noite de domingo. A cena o deprime. Não suporta aquela solidão e acha intolerável ver a mãe naquele estado de abandono.

Mas o que pode fazer a respeito? Ele poderia sentar ali no sofá ao lado dela e fazer-lhe companhia. Poderiam conversar sobre a viagem que ela fará em breve ou sobre o dia que passaram no sítio de amigos. Um dia inteiro de relembranças do passado e de falar dos muitos que já morreram por aquelas terras. Velhos quando se juntam só sabem falar disso. E ele, apesar de não ser ainda velho, nas suas pretensões de escriba, adora ouvir as histórias. Quem sabe elas renderão um bom texto.

Mas o dia no sítio só rendeu mesmo essas conversas sem fim e sem futuro sobre uns dias lá atrás, tão longínquos. Reminiscências nostálgicas de duas velhas que teimam em contar que idade tinham os pais, os irmãos, os conhecidos e os parentes quando morreram há milhões de anos e quem era filho de não-se-sabe-quem, quem nasceu não-se-sabe-quando, quem viveu não-se-sabe-onde, uma contestando de vez em quando a fidedignidade da memória da outra, como se houvesse algum tipo de competição para determinar quem se lembra de mais fragmentos do passado.

O irmão, praticamente o único que ainda reside em casa, acabou de sair para a cidade vizinha, onde trabalha. Se é que se pode chamar de residir o ato de aparecer uma vez a cada fim de semana para trazer a roupa suja para lavar, trocar meia dúzia de palavras, comer em frente à televisão e passar o restante do tempo largado no sofá, roncando diante da tevê ligada num programa inútil qualquer. Mas pelo menos há a presença dele ali. Talvez isso por si só a conforte.

E quando o irmão sai, ele se sente na obrigação de fazer companhia à mãe idosa, que se encontra em frente à televisão em completo silêncio, à meia luz, uma imagem dolorida demais, pois aquela aura de abandono e de fim de vida lembra-lhe da pior maneira possível, bem quando ele está cheio de planos para o futuro, seu próprio fim, como se lhe esfregasse na cara: “você também chegará exatamente aqui”.

E pior para ele é compreender que seu futuro não poderá ser mesmo diferente daquele. Por que o seria? Afinal, se a mãe, que pariu seis filhos e criou-os como se seu cordão umbilical fosse inquebrantável, está neste ocaso solitário de dar dó, imagine quem nem teve filho algum, quem já é meio solitário desde já.

O que o entristece, portanto, não é só a solidão da mãe, mas ver seu próprio futuro refletido naquela cena. E perceber que mesmo pessoas que quando jovens foram enérgicas, ativas, dinâmicas e cheias de autonomia, quando velhas também se tornam estorvos relegados a um canto, mas ainda bem visíveis, só para terem a deselegância de lembrar aos que ainda são jovens que sua vez chegará. Que mau gosto o desses velhos.

Por que as velhas mães ficam tão abelhudas em sua ânsia de agradar? “Você já comeu isso? Já provou aquilo? Fiz sua comida favorita.” De manhã, quando ele avistou a irmã a perseguir o sobrinho com comida, lembrou-se de que todas elas são iguais, vivendo desde cedo em função de agradar aos filhos. Observar a irmã recordou-lhe a mãe, mais cedo na vida, reclamando do quanto sua própria mãe era também aborrecida, enfadonha, sem assunto.

A mãe querendo agradá-lo o tempo todo o irrita. E contando repetidas vezes a mesma história impacienta-o mais ainda. “Não, mãe, eu não quero comer a segunda tapioca. Também não quero comer mais uma pamonha. Nem aguento mais uma terceira fatia de queijo coalho. A senhora já me contou isso. Sim essa mesma, sobre esta mesma prima sua.”

Então, para não perder a paciência, ele apela para a chantagem: “Mais comida? Não, obrigado. É claro que gostei, mas a senhora quer que eu volte das férias pesando cem quilos, por acaso?” Ela, toda encabulada, sorri peralta e, na falta de coisa melhor para dizer, responde: “E não está bom?”

Se ele tivesse mais intimidade. Ah, se houvesse mais um pouco de intimidade entre eles! Mas a distância de tantos anos fora de casa criou um distanciamento que é impossível de ser reparado. É quase um abismo. Não há cola que refaça outra vez o vínculo que se rompeu. Mas se ele tivesse um pouco mais de intimidade teria dito: “Bom é o cacete, mãe! Então a senhora não acabou de reclamar que meu irmão está gordo demais? Não acabou de dizer que ele precisa emagrecer? Como agora quer me engordar também?”

No fundo ela queira engordá-lo para ter do que reclamar a seu respeito. Quem sabe se com um bom motivo de reclamação, nem que seja uma barriga saliente de banha, algum motivo para pegar no pé do filho, o vínculo se refaça. Quem sabe volte a ser como quando ele era criança e eles eram tão próximos e tão apegados e ela brigava por ele não fazer a lição de casa na hora certa. Então, ela ainda estava no comando, ainda tinha muita importância na vida do filho. Não era esta figura quase invisível, imóvel num canto da sala, relegada à desgraça da programação televisiva de fim do domingo.

Ele fica puto que ela fique empurrando comida nele, como se ele estivesse passando fome na cidade grande, ou estivesse sendo cevado para o natal. “Vão me comer no natal, é mãe? Não teremos peru este ano?”

Ela só quer ser útil. Ela só quer agradar. Ela só quer se sentir outra vez mãe, agora que nenhum dos filhos está mais ali para ser cuidado. E a mulher acostumou-se durante tantos anos ao papel de mãe que não conhece outro. Como se sente uma mãe que quase não tem mais filhos? O que faz uma mãe sem filhos que a demandem? Se o filho não quer mais que ela lhe lave a roupa, se a dispensou de fazer o jantar porque não está mais acostumado a comer à noite por medo de engordar, se não come muito no café da manhã porque se acostumou a porções menores, o que será dela? Tornou-se inútil? Como assim, não precisam mais dela?

Ele compreende tudo isso. Sobretudo compreende que chegará o dia em que sentirá tanta vontade de alguém que lhe faça a tapioca e que lhe asse bem douradinho o queijo coalho na frigideira e que lhe pergunte se ele não quererá que ela lhe esquente a pamonha e que o aporrinhe para que coma uma segunda fatia de bolo.

Alguém não, mas aquele alguém, aquela mulher que lhe fez isso tantas vezes. No dia em que ela não estiver mais aqui, ele pensará que foi um idiota por não ter se deixado paparicar mais. Sentirá remorso por não tê-la deixado engordá-lo até explodir. Odiar-se-á por ter perdido a paciência com ela quando lhe contara a mesma história pela milionésima vez. Ele quererá ouvir novamente a voz tão suave, tão doce, tão baixinha, chamando-o para acordar: “filho, tá na hora!”.

E muitos anos depois, quando ele nem se recordar mais do som da voz dela, quando estiver morto de saudade de toda aquela chatice de ser mimado, acarinhado, paparicado, afagado, vai pensar que daria um braço para tê-la perto de si outra vez, nem que fosse só para passar pela sala e vê-la outra vez imóvel e em silêncio na penumbra, toda enrugadinha assistindo à televisão.