Meu nome é Astrogildo

Sim, este mesmo, A-S-T-R-O-G-I-L-D-O, com todo este monte de letras, você não leu errado.

Mas por que, depois de tantos anos, resolvi assumi-lo como tal e modificar meu nome de perfil no Facebook do insípido Gildo C. Costa para Astrogildo Cândido?

Hoje, ao passar no caixa do supermercado do Extra aqui perto de casa, a operadora de caixa, ao lê-lo, começou a rir-se e a perguntar-me de onde meu pai o tirara.

Ora, eu pensava que não havia mais pessoas indelicadas a ponto de rirem do nome de alguém que não conheciam, com quem não tinham qualquer intimidade, alguém que sequer viram uma vez na vida. E tudo isso bem diante dos olhos atônitos do objeto dos risos. Pensava que as pessoas teriam o bom gosto de rir pelas minhas costas. Eu estava enganado, como veem.

Essa não foi de modo algum a primeira vez que isso aconteceu. Mas eu também pensava (como veem, sou iludido com a bondade humana) que, com a idade, com uma postura diferente de minha parte, e por respeito aos cabelos brancos cada vez mais abundantes em minha cabeça, as pessoas não se sentiriam mais à vontade para ter tipo de atitude. Estava enganado outra vez.

Eu tenho quarenta e quatro anos (escrito assim, por extenso, para não restarem dúvidas). Antigamente, quando era garotão, sempre me apresentava como Gildo. Fazia isso com tal frequência que já passei pela situação de alguém ficar surpreso ao descobrir meu nome verdadeiro depois de anos de convivência.

Quando era inevitável dizê-lo, eu falava no tom de voz mais baixo possível, para não espalhar. E, por motivos óbvios, sempre odiei salas de esperas de consultórios e primeiros dias de aulas ou qualquer situação onde ele pudesse pronunciado em voz alta diante de desconhecidos. No dia da apresentação na Marinha, long, long time ago, quando o oficial que fazia a triagem chamou meu nome, o mundo veio abaixo sobre mim em forma de cerca de duzentos rostos adolescentes às gargalhadas.

No primeiro dia de aula eu sempre ia antes a cada professor novo que entrava na sala e pedia: Professor, vê este nome aqui? Pode chamar só Gildo, por favor? Sempre o mesmo ritual, anos e anos, com cada novo professor. Tudo para evitar que o inominável fosse pronunciado.

Mas como eu disse, tendo aquela idade escrita ali em cima, hoje tenho outra postura. Sou um profissional de relativo sucesso, formado, pós-graduado, e aprendi que se disser meu nome com a postura correta e a entonação adequada poucas pessoas se atrevem a rir depois disso. Eu não contava que ele ainda seria engraçado ao ser lido, como foi o caso de hoje.

Uma vez uma neurologista, ao ser elogiada por mim por seu nome lindo, Tarsila, disse-me que o meu não era feio, apenas combinava com um homem mais velho. Eu, como não poderia deixar de ser, apaixonei-me pela médica e quis beijá-la (não fiz isso porque provavelmente nesse caso ela diria que meu caso não era neurológico, mas psiquiátrico), além de ter ficado contente por saber que um dia meu nome finalmente combinará comigo.

Meu nome poderia ser Ricardo, Leonardo, Marcos, Eduardo, Rogério, Alexandre… ou qualquer outro dos nomes comuns que pululam em homens da minha geração. Mas não, é Astrogildo.

A despeito do desconforto que esse quase palavrão me trouxe durante muitos anos, hoje, ao ouvir aquela moça divertindo-se a valer com minha graça (nunca um termo foi tão adequado para designar um nome), eu me lembrei de que gosto dele faz tempo. E ri com ela, respondi à pergunta sobre a origem dele com um “não faço ideia, meu pai morreu antes de me dizê-lo”, e continuamos a brincar que se eu fosse uma grande celebridade meu nome seria mais que adequado. Sou um astro. Não é à toa que sou autor do Blog do Astro.

E é assim que os professores e funcionários da academia que frequento me chamam: Astro. Adoro como isso soa na boca deles. Também sou chamado de Gildo, de Gil, de Iba e de Tito. Ah, e um amigo meu do passado às vezes me chamava de Astrogildim. Iba e Tito foram inventados por crianças muito pequenas, que não sabiam pronunciar Astrogildo, e falavam o que lhes parecia mais próximo. O primeiro apelido foi dado por meu irmão mais velho, quando estava aprendendo a falar, e é com sou conhecido por todos os meus irmãos, vizinhos, primos e parentes em geral e até pela minha mãe, lá na Paraíba. O segundo foi uma priminha aqui de São Paulo que me deu.

Astrogildo, um nome de origem teutônica, que significa “brilhante, digno de sacrifício” (confesso que descobrir esse significado mudou muito minha perspectiva sobre ele), está se tornando adequado a mim pela idade e pelo hábito.

Mas, sobretudo, meu nome é adequado a mim porque aprendi a amá-lo, a entendê-lo e a ver que eu não consigo me imaginar com outro. Eu sou exatamente este aqui, com este nome e confortável com isso. Portanto, quer você me chame de Gildo, de Gil, de Astro, de Iba, de Tito ou até mesmo de Astrogildim (não, este também já é demais), saiba que todos esses são abreviações ou corruptelas de Astrogildo.

É por isso que resolvi assumir o monst…, digo, meu belo nome, e mudá-lo no meu perfil do Facebook. De Areia para o mundo. Papai ficaria orgulhoso. Isto que é ser um astro.