Simba

Pode parecer bizarro, mas a coisa de que me lembro com mais nitidez é que ele tinha um saquinho que balançava quando ele corria. E era uma graça de ver. Ele corria com a cauda levantada e o saquinho, com as duas bolinhas, balançava para e para cá, como um cacho de uvas com apenas duas uvinhas. Esse saquinho, ou melhor, seu conteúdo e a descarga hormonal que descarregava regularmente em seu pequeno corpo, foram a perdição dele. E o meu erro.

Esse era Simba. Era uma lady, um poodle disfarçado de gato. Nunca conheci um gato mais fofo e mais mansinho do que aquele. Ele ficava bravo em duas ocasiões, ao cortar as unhas e ao ter suas bolinhas afagadas. Com o perdão da deselegância, não posso entender que alguém não goste de um afago nas bolas, mas ele detestava. E me olhava com aquela cara redonda, com seus enormes olhos azuis, como se fosse morder minha mão. Miava bravo, fazia aquele fssssst dos gatos quando nervosos, que parece o chocalho de uma cascavel, mas não mordia.

Ele nunca mordia. Ou melhor, até mordia. O próprio rabo, a ração, ou meus dedos, mas era tudo uma grande brincadeira, pois, como todos os de sua espécie, Simba também era um brincalhão. Não podia ver um objeto qualquer se mexendo que desatava a correr feito um louco para um canto e outro da casa, em perseguição ao inimigo imaginário.

Era um gato meigo, embora essa não seja uma característica normalmente atribuída aos gatos. Então quando eu digo que Simba era um gato fofo, não estou falando de seu corpo redondo, nem de seus pelos macios, nem dos sentidos denotativos de fofo que a gente encontra no dicionário: leve, ralo, e que facilmente cede à pressão; mole, macio, brando; elástico. E olha que Simba era tudo isso. Ele era uma delícia de pegar, de amassar, de beijar, de manipular. E o melhor de tudo é que ele sempre se deixava manipular à vontade. Tal qual um boneco articulado, se a pessoa o colocasse virado de barriga para cima, ele permanecia de barriga para cima; se lhe afagasse a barriga, ele se deixava afagar; e se a gente lhe virasse as orelhas do avesso, ele nem ligava. Deixava-se estar um tempão, com as orelhinhas viradas, feinho de dar dó, mas não estava nem aí. Manso, dócil, de trato facílimo.

Falo, isso sim, dos outros significados de fofo no dicionário. E são esses os mais adequados ao Simba. Mais do que as características físicas, o que definia aquele gatinho eram suas características psicológicas. Sim porque, dos sentidos conotativos da palavra fofo no dicionário, bonito e gracioso, ele tinha esses e muitos mais. Eu poderia desdobrar esses significados em muitos outros, mas não quero encher o texto de adjetivos quando sei que ainda assim seriam insuficientes para descrevê-lo.

Ele era um gatinho gregário, que adorava os humanos. E eu tenho a pretensão de pensar que de todos os humanos ele tinha uma predileção especial por mim. Ah, você pode pensar que isso é porque eu era o dono dele, porque eu o alimentava, porque o banhava e tratava-o contra as pulgas. Mas eu vou além. Prefiro pensar que ele realmente gostava de mim, não como líder do bando, não por uma necessidade puramente instintiva, mas porque era eu.

Pode-se pensar o que quiser. Que eu não era como um pai para ele, que ele agia mesmo por instinto, que esta coisa de atribuir qualidades humanas aos animais é uma imbecilidade. Eu não me importo. Prefiro manter meu foco na minha relação com Simba. E eu sei que significava para ele mais do que simplesmente a mão que o alimentava e travava a luta inglória contra suas pulgas, que teimavam em retornar ao lar, vindas sabe-se de onde.

Quando eu me lembro da cara redonda, do focinho preto e do grande par de olhos azuis profundos, quando me vêm à cabeça suas orelhinhas, que ele sabia mexer quando estava feliz ou bravo; não é simplesmente do animal que me recordo, mas do bichinho que ia me receber à porta, independentemente de onde estivesse enfiado.

Quem tem gatos sabe que eles têm o talento de se fazerem invisíveis. Simba também tinha esse, entre muitos outros. Mas por mais invisível que ele estivesse, isto é, não importa onde ele estivesse escondido, vinha me encontrar ao primeiro sinal da chave na porta, por volta das 23 horas, quando eu retornava do trabalho. E antes de qualquer coisa eu dizia:Oi, Simba.e o pegava no colo. Adorava colocá-lo sobre o peito, com a cabeça deitada sobre meu ombro, como o bebê que ele era, e ele permanecia, quietinho, pelo tempo que eu o mantivesse assim, com a cabeça bem próxima ao meu ouvido, para eu poder ouvir o ronronar baixinho e contínuo.

Mas ele era macho, não castrado, e tinha suas necessidades. Um belo dia resolveu que queria sair à procura de uma namorada. Não sei que cheiro vindo de longe ele sentia, pois começou a miar sem parar. Miava na porta do meu quarto, eu o colocava para dentro, então ele continuava a miar, eu o punha para fora, ele miava outra vez. Eu o enxotava, ele corria para longe, mas apenas dois minutos depois estava de volta, miando mais alto ainda.

Eu não sabia o que fazer com aqueles miados todos. E tinha dois companheiros de apartamento, cada um em seu quarto, que não ficavam satisfeitos com aquele barulho ininterrupto, constante. Fiquei com medo de perder meus companheiros de república ou de me indispor com eles por causa do meu bichinho. Pura covardia.

Então tomei a decisão mais idiota da minha vida. Eu poderia ter castrado Simba, poderia ter suportado os miados, poderia ter convencido meus companheiros de que dormir com aquela sinfonia de miados era a coisa mais deliciosa do mundo, embora eu mesmo achasse o barulho insuportável, poderia simplesmente ter tomado várias decisões mais inteligentes e eficazes. Mas não. O que fiz foi soltar o bichinho para que ele pudesse ir sossegado atrás das gatas dele.

E isso foi uma bela ideia de jerico. Abri a porta, Simba saiu todo faceiro com sua cauda felpuda levantada e seu saquinho balançando para um lado e para o outro, andou pelo corredor do prédio até dar com a escada e desceu. Foi a última vez que o vi.

Por dias esperei que ele retornasse. Esses dias tornaram-se semanas. As semanas, meses por fim desisti de esperar. Mudei de apartamento, de cidade, até de estado, mas não esqueço meu gatinho. Aquela doçura em forma de pelos marrons e pretos nunca sairá da minha cabeça. A sensação de enfiar o rosto na barriga dele e de sentir os pelos macios no meu nariz, tampouco. Mas não nada que eu possa fazer, a não ser homenageá-lo aqui.

Meu Simba se foi. Eu sei que ele pode ter sido atropelado. Mas prefiro pensar que, de tão lindo e mansinho como era, foi adotado por alguém que o trata melhor do que eu o tratei, ou seja, que jamais vai ter a ideia estúpida de deixá-lo sair à rua no meio da noite, com risco de se perder, de ser maltratado ou até de morrer. Prefiro acreditar que hoje ele recebe à porta outra pessoa que o trata com todo o carinho que ele merece, e que ele retribui em abundância esse carinho, como sempre fez comigo.

E acredito também que no dia em que Simba morrer, ele irá para o paraíso dos gatos (sim, existe um paraíso para os gatos e mesmo um ateu graças a deus como este aqui tem que acreditar nisso, se não, que esperança de redenção eu teria?). ele será recompensado por ser o gatinho mais fofo que pisou nesta terra e por toda a alegria que me proporcionou. Um dia eu vou encontrá-lo lá, para lhe dar um grande abraço, esfregar meu nariz em sua barriga fofa, afagar suas costas e ouvir outra vez aquele delicioso ronronar.

Vou também pedir perdão por tê-lo deixado sair no meio da noite, por não lhe ter dado a chance de ficar um pouco mais comigo. E Simba, generoso de afeto como sempre foi, certamente me perdoará. Então eu nunca mais o deixarei sair de perto de mim outra vez.