Sobre pessoas delicadas e suas delicadezas

Meses atrás tivemos o prazer de ter a sala ao lado da nossa ocupada por mais um gabinete. Ficamos contentes, é claro, com novos colegas de trabalho. Mas essa alegria durou bem pouco. Logo nos primeiros dias notamos que o barulho que os colegas faziam era bastante incômodo.

Como todos sabemos, o trabalho que se realiza em um gabinete é eminentemente intelectual. E como tal, exige o máximo de concentração possível. Logo, não é possível realizá-lo com conversa, barulho e risadas constantes.

Por isso, logo nesses primeiros dias, eu saí de nossa sala e fui pedir aos meus queridos vizinhos que maneirassem o tom, porque nós do gabinete ao lado estávamos tentando nos concentrar e estava difícil com aquele barulho. Como se tratava de colegas de trabalho, que deduzi serem pessoas civilizadas, adultas, profissionais e, sobretudo, educadas, apesar do tom de voz, com as quais eu pretendia ter uma boa convivência, procurei fazer esse pedido com o máximo de cuidado possível para não ofendê-los.

Todo mundo sabe que não é fácil pedir a alguém que faça algo que é sua obrigação, mas que ela não se dispõe a fazer por conta própria, isto é, que respeite seus vizinhos, que se comporte profissionalmente e que procure não incomodar pessoas que precisam de concentração em seu ambiente de trabalho. E é difícil porque pessoas que não têm um mínimo de bom senso para fazer isso sozinhas, normalmente não são educadas, normalmente não se interessam pelo bem-estar do próximo e normalmente não recebem com bom ânimo esse tipo de pedido.

Todavia, como estamos em um ambiente supostamente civilizado, repleto de pessoas de bom nível social e cultural, eu pensei que nesse caso específico não teria problemas em me fazer entender. Talvez meus colegas só estivessem passando por um momento inicial de empolgação com o novo gabinete e houvessem se esquecido de moderar o tom.

E de fato, naquele dia não houve mais problemas. Meus queridos colegas vizinhos fizeram silêncio e tudo correu na mais perfeita paz pelo resto do dia.

Pena que essa paz só durou um dia.

Nos dias seguintes, e desde então, nós todos no gabinete nos incomodamos com o barulho excessivo. São risadas muito altas, vozes imoderadas, papos esdrúxulos, como, por exemplo, as questões familiares da duquesa Kate Middleton e as últimas das celebridades, e coisas desse tipo. Tudo isso, é claro, em alto e bom tom e acompanhado de muitas risadas, ou melhor, de gargalhadas, pois nós também rimos, mas usualmente não naquele tom. O som parece o de uma bela festa de jardim numa ensolarada manhã de domingo. Por isso nós os apelidamos de “o gabinete feliz”.

Como já disse, não há moderação de tom. Poderíamos ouvir nitidamente, com riqueza de detalhes, tudo o que dizem (e de fato às vezes ouvimos fragmentos dessas conversas quando saímos ao corredor, por isso sei de que assuntos tratam), se não deixássemos permanentemente nossa porta fechada, pois meus caríssimos vizinhos fazem questão de manter a deles diária e constantemente escancarada. No dia a dia procuramos nos distrair para não ouvir o barulho, usando protetores de ouvido ou fones para música, e mantendo nossa porta fechada, independentemente do tempo que faça e de quanto o ar esteja viciado aqui dentro pelo ar condicionado. Mesmo assim não é fácil.

Deixo claro que não se trata de algo esporádico. Se o fosse, certamente teríamos o bom senso e a delicadeza de entender e de tolerar. Todos nós conversamos, todos nós rimos, todos nós brincamos e às vezes nos exaltamos. Faz parte da nossa existência como seres humanos, a qual seria chata demais, sobretudo no trabalho, sem alguns momentos de descontração. O problema no presente caso é que não se trata de momentos de alegria. No gabinete vizinho momentos são os de silêncio, pois a chacrinha é a regra. Exceto quando o Senhor Procurador Regional encontra-se em seu gabinete, como não poderia deixar de ser. Nesses dias reina o mais absoluto sossego.

Ontem, depois de muito tentarmos tolerar a algazarra e de termos tentado também, infelizmente sem sucesso, mudar de gabinete duas vezes, assumi a desagradável tarefa de pedir mais uma vez aos meus queridos vizinhos que, se não podiam moderar o tom, pelo menos fizessem a gentileza de fechar a porta.

E para minha amarga surpresa, ouvi da senhora secretária do gabinete que eu estava sendo indelicado. Exatamente. Essa foi a palavra usada na frase que transcrevo a seguir: “Nós por acaso já fomos ao seu gabinete reclamar de barulho? Não. E no entanto é a segunda vez que você vem aqui. Que indelicado! Ah, dá licença!”

Ela ainda disse que nós também fazemos barulho, inclusive em festinhas e eles nunca haviam reclamado. E me perguntou se eu também reclamava de outros gabinetes. Eu respondi que jamais havia reclamado de outros gabinetes porque não ouvia barulho algum deles, afinal todos mantinham suas portas fechadas. E que se por acaso ela se sentisse incomodada com algum barulho que nós fazíamos, poderia ter ido pedir silêncio sim, como eu o fazia então.

Ainda tentei argumentar que indelicadeza era eu ter que sair da minha sala para pedir silêncio aos meus vizinhos porque não conseguia trabalhar em vista do barulho deles. Mas não consegui, pois minha caríssima colega secretária saiu da sala e me deixou falando sozinho. Não tive alternativa a não ser voltar para minha sala e me preparar para continuar a suportar o barulho.

Obviamente a porta continuou escancarada, como está neste momento e provavelmente estará sempre.

Se eu tivesse podido argumentar, teria perguntado a minha digníssima colega secretária o que ela entende por delicadeza. Porque para mim, delicadeza é respeitar seus semelhantes. Delicadeza, na minha modesta opinião, é não fazer aos outros o que não queremos que se faça a nós mesmos. Delicadeza, pelo que sei, é cuidar para que o ambiente a nossa volta seja harmonioso e para que as pessoas em torno de nós sejam incomodadas o mínimo possível pela nossa presença neste planeta, afinal de contas todos temos o mesmíssimo direito a ocupá-lo.

Comportar-se com delicadeza, penso eu, é ser profissional num ambiente de trabalho. Eu entendo que não devemos fazer do local onde prestamos serviço ao Estado uma extensão da nossa casa. Pelo que sei, o local de trabalho não deve ser encarado da mesma forma que uma festa na laje. E descontração, alegria e simpatia, não significam transformar o ambiente de trabalho num churrasco de sábado à tarde. É o que penso, mas dado o fato de que fui considerado indelicado pelo simples fato de ter ido pedir um pouco de silêncio, talvez eu esteja enganado. Quem sabe essa inversão de valores seja a regra nos dias atuais.

Eu teria, ainda, se minha querida colega houvesse permitido que eu argumentasse, me comprometido a jamais fazer outra vez no gabinete o que ela chamou de “festinhas”, que a incomodaram tanto. De fato, o que ela chamou de “festinhas”, foram algumas ocasiões esporádicas em que cantamos parabéns para alguns colegas de gabinete que aniversariavam. Inclusive, em algumas delas, contamos com a presença de nosso chefe, o Senhor Procurador Regional. Duvido que mesmo nessas “festinhas” tenhamos feito metade da algazarra que meus queridos colegas vizinhos fazem diariamente. Mesmo assim, se houvesse alguma reclamação, eu teria me comprometido a não repeti-las, como de fato o faço agora.

Quisera eu que minha cara colega secretária pudesse fazer o mesmo: comprometer-se comigo a não mais repetir o barulhão diário de seu gabinete. Infelizmente não vislumbro essa possibilidade.

Tudo isso eu poderia ter argumentado, conversado e tratado com ela e com seus colegas de gabinete, como cidadãos civilizados fariam. Poderia. Se minha digna colega houvesse feito a delicadeza de me ouvir. Mas ela, que fez questão de me chamar de indelicado em suas poucas palavras, fez-me a “delicadeza”, isso sim, de virar-me as costas e de deixar-me falando sozinho. Portanto, como fui deixado falando sozinho, sinto-me no direito de falar sozinho aqui, contando a história para quem a quiser ler.

Se alguém pensa que faltei com a verdade neste texto, se esqueci algum detalhe, se exagerei ou mesmo se porventura alguma pessoa sentir necessidade de contestar o que narrei, estou à disposição.

Por ora é o que me cabe dizer. Sozinho. E desde já, digo também: quem não se presta a argumentar, corre o risco de ficar somente com o ponto de vista contrário, satisfatório ou não.