Uuuui, que medinho do Trump!

Você é dos que, assim como eu, tremelicou-se todo de medinho do Trump ontem o dia inteiro? Recebeu memes variados, de previsões d’Os Simpsons ao Cristo Redentor abraçando solidário a Estátua da Liberdade, passando por planos de viagens que substituíam Disney World e Miami por Beto Carrero World e Paraguai? Assistiu, ouviu e leu zilhões de matérias jornalísticas nas quais se provava por A mais B o quanto a eleição era não só inesperada como também ruim, péssima, terrível, catastrófica… blá, blá, blá… para os Estados Unidos e para o mundo?

Na esteira de toda essa comoção mundial, com bolsas de valores caindo, mercados mundiais em pânico e o medo de que no fundo aquela sua tão sonhada viagem a Miami esteja ameaçada pelo muro de Trump, li a seguinte frase de meu irmão mais novo: “Como professor e tendo uma PEC de 20 anos por aqui, posso dizer que estou tranquilo com a vitória de Trump, pois sei que, durante esse tempo, eu não vou poder viajar pra lá mesmo. E já que ele sai em, no máximo, 8 anos…”

Fiquei pensando nessa frase e me dei conta de que enquanto estamos com paniquinho da vitória do fanfarrão americano, esquecemos que o buraco é mais embaixo. Bem mais embaixo no hemisfério americano, quero dizer. Bem aqui mesmo no Brasil. Entendeu ou quer que eu desenhe um mapa com nosso país afundando na lama?

Enquanto estamos preocupados com o Tsutrump americano, acabamos de eleger aqui mesmo em São Paulo Doria, nosso Mr. Ralph Lauren, tucano com contratos de mais de dez milhões de reais com dez governos do, adivinhem!!!, PSDB, espalhados pelo país. Quer apostar quanto que esses mais de dez milhões aumentarão exponencialmente durante o governo Doria? Aquele mesmo, cuja esposa (quiçá ele próprio?) não sabe o que é, onde fica nem para que serve o Minhocão.

Trump te assusta? A mim também (ah, minha viagem para Miami, snif, snif, snif…). E que tal Marcelo Crivella, com seu discurso “a família deve ser mantida como ela é”?

Enquanto você está aí todo assustadinho com o resultado da eleição americana, resultados como esse do Rio de Janeiro começam a consolidar por aqui a tendência cada vez mais perigosa de líderes políticos ultra conservadores, com valores baseados em religiões de práticas medievais que vão de encontro a direitos das mulheres, como o uso livre do próprio corpo; dos gays, como casamento, família e união civil; dos transgêneros, como políticas de apoio à socialização e à inclusão, e de outras minorias. Ou você acha que um político que se identifica como membro de uma religião baseada nos valores de um livro escrito há vários milhares de anos apoiaria tais políticas?

Você pensa mesmo que é à toa que ainda ontem, surfando na super onda Trump, o conhecido oportunista, bravateiro e homofóbico assumido Bolsonaro, lançou sua candidatura para 2018? Ei, você aí, que fuma seu baseadinho de vez em quando e é super a favor do empoderamento feminino, o que acha que Bolsonaro e Crivella pensam sobre o cheiro do seu cigarrinho e sobre o direito das mulheres ao aborto, mesmo em caso de estupro?

Enquanto você e eu nos preocupamos com a saúde da democracia americana, sólida, fortalecida e consolidada há mais de 200 anos, que tal falar da nossa, com seus menos de 30, que nunca se viu tão ameaçada? Ou você pensa mesmo que apear do poder um governante legitimamente eleito para colocar outro no lugar, sabe-se lá em nome de que interesses, fortalece nossa democracia?

Não estou defendendo este ou aquele candidato, nem este ou aquele partido, nem Dilma nem PT, nem cerro meus olhos para os casos correntes de corrupção de que nosso país é pródigo (entre os que apearam a presidente do poder não é novidade para ninguém que a maioria está enrolada em falcatruas até o último fio de cabelo implantado). Defendo o fortalecimento de nossas instituições e de nossa identidade como nação democrática e pluralista, que talvez nunca em época alguma de sua curta existência tenha estado sob ataque tão aguerrido.

Você aí, você mesmo, que está preocupado com sua viagem a Nova Iorque porque o diabo do presidente eleito americano vai construir um muro para isolar-se, sabia que ontem foi aprovada em primeiro turno no Senado a PEC que acaba com as coligações partidárias e institui a cláusula de barreira para os partidos políticos? Vejo no horizonte a democracia e o pluralismo político fortalecidos, s.q.n.!!! Essa notícia importante foi dada numa notinha acanhada e muito curta em meio à enxurrada de Trump, Trump, Trump.

E quando os gastos públicos forem congelados por 20 anos pela PEC 241? E quando os investimentos em educação e saúde minguarem? E quando a reforma da educação for posta em prática? E quando a ponte para o futuro (Futuro de quem, cara pálida? O seu? Tem certeza?) for consolidada? Você pensa mesmo que quando tudo isso acontecer vai sobrar dindim para suas comprinhas em Niu Iorc?

Pelas análises de pessoas mais inteligentes (ou menos burras, como queira) do que eu, Trump foi eleito pelo americano branco pouco escolarizado e sem curso superior, um exército de excluídos da prosperidade americana e mundial, cuja ignorância os levou a acreditarem nas bravatas do meu (a partir de agora) personagem preferido d’Os Simpsons. Ei, essa informação por acaso te faz lembrar da proposta de reforma da educação tupiniquim que vai possibilitar que os estudantes “escolham” se querem ir para a universidade ou concluir apenas um ensino médio técnico? A quem interessa uma miríade de pessoas sem curso superior?

E então, ainda está nervosinho com a eleição nos Estados Unidos? Pense, pense, pense… ou, na esteira do tsunami Donald Trump, a nova catástrofe americana segundo os entendidos, os menos burros do que eu, think, think, think… o abismo está logo aqui, amig@, e enquanto você e eu nos preocupamos demais com a eleição americana, podemos estar sendo empurrados para dentro dele neste exato momento sem sequer fazermos ideia do que nos atingiu.

Como dizia minha avó: “Abre o olho, rapaz!”